Não sei dizer exatamente quando registrei a existência de Elon Musk, tampouco quando surgiu minha antipatia por ele. No entanto, ao contrário de outros bilionários que já tiveram minha admiração—como Steve Jobs, Larry Page, Sergey Brin, Eric Schmidt, Bill Gates e Jeff Bezos, cujas ideias acompanhei e sobre os quais li livros—nunca senti nada semelhante por Musk.
Desde o início, ele sempre me soou e agiu como um con man, vendendo soluções milagrosas e simplistas para problemas extremamente complexos. O momento em que minha indiferença se transformou definitivamente em antipatia foi quando ele reagiu de maneira absurda ao ser contrariado no episódio das crianças presas em uma caverna na Tailândia. Enquanto ele propunha uma solução inviável, alguém que realmente sabia o que estava fazendo foi lá e salvou as crianças. Sua resposta a essa derrota moral foi atacar o resgatador, chamando-o de pedófilo—um comportamento repugnante e revelador.
Não que já não houvesse outros sinais antes disso. Sua proposta para solucionar o problema do trânsito urbano, baseada em túneis exclusivos para carros, ignorava o fato de que já existe uma solução muito mais eficiente e amplamente utilizada: o metrô. Ou a empresa que vendia lança-chamas, um produto absolutamente supérfluo e perigoso. E por aí vai.
Nada disso é novidade. O problema real começou quando Musk deixou de ser apenas um excêntrico e passou a ser um modelo de liderança a ser seguido. Seu estilo de gestão, cruel e desumanizado, tornou-se uma referência para outros CEOs—alguns dos quais já admirei em algum momento—, que passaram a adotar sua abordagem. Isso é particularmente grave porque Musk demonstra, repetidamente, que não tem domínio sobre os assuntos nos quais insiste em opinar.
Ele se vende como alguém que "enxerga a matrix" simplesmente porque consegue jogar videogames em dificuldades elevadas—o que, ironicamente, me fez perder o interesse em um dos poucos jogos que eu jogava. Seu entendimento sobre moderação de conteúdo, política e eficiência governamental se baseia na mesma lógica: propor soluções simplistas e estúpidas para problemas profundamente complexos.
Esse fenômeno não se restringe a ele. O Vale do Silício parece cada vez mais contaminado por essa ilusão de superioridade absoluta. Recentemente, Jeff Bezos publicou um texto no X sobre sua nova política para o Washington Post, demonstrando o mesmo problema: bilionários opinando sobre assuntos que não dominam, fazendo papel de ignorantes ao lado de Musk e outros que acreditam que, por serem bem-sucedidos nos negócios, possuem compreensão instantânea e absoluta sobre qualquer outro tema.
Infelizmente, essa mentalidade dificulta levar a sério qualquer outro pensamento vindo desses bilionários e nos faz duvidar se eles foram, realmente, responsáveis pelo sucesso de suas empresas.
Suas fantasias de serem gênios universais os transformam, na prática, em figuras perigosas para o mundo. O sucesso no ecossistema de startups e negócios lhes conferiu um poder desproporcional, que agora usam para impor soluções equivocadas para problemas que não compreendem.
Não há sabedoria nem genialidade nesse comportamento. Como disse Sócrates: "Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância." Se isso é verdade, então tolo é quem acredita saber tudo.